(Feli)Cidade
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Desde que me mudei para Florianópolis, alguns meses atrás,
tive que me adaptar a uma nova rotina, totalmente diferente da que eu conhecia.
Como eu imaginava, a cidade se move num ritmo mais devagar
do que estou acostumado. As primeiras semanas foram difíceis, neste sentido: eu
e a cidade demoramos a entrar em sintonia e, assim, eu acabava me irritando com
a demora. Era no mercado, no restaurante, no banco, no bar.
Acho que isso durou pouco mais de um mês, até eu passar um
dia em São Paulo. Quase enlouqueci, mas descobri que Florianópolis não é
devagar, é São Paulo que se atropela demais. Ou seja, entre eu e Florianópolis,
quem estava errado era eu. Foi quando tomei jeito, percebi que se eu quisesse
correria, eu teria continuado em São Paulo e me adaptei à cidade.
Acho que foi aí que a paixão pela cidade – que nasceu mais
de ano atrás, durante uma viagem de Ano Novo – virou amor.
E, claro, foi aí que as coisas se ajeitaram. Mas eu confesso
que ainda não entendo como a cidade pode ser mais devagar e, mesmo assim, o dia
rende muito mais do que quando eu estava em São Paulo. Mesmo porque ainda faço
as mesmas coisas... Ainda escrevo o tempo inteiro, e estou começando rabiscar
ideias para meu novo livro. Não vai ser sequência do anterior, como já me
perguntaram. Vai ser algo totalmente diferente, e... Bom, vamos mudar de assunto
antes que eu fale demais.
Enfim... Ainda escrevo a maior parte do dia. E já achei o
lugar que mais gosto de fazer isso: é na mesa da sala, com o notebook. Achei
que seria a varanda, mas prefiro ter o computador na mesa, e consigo ver a
vista daqui onde estou. Então divido meu tempo escrevendo para mim e para os
outros. Para mim, claro, estou falando dos blogs – algo que nunca vou abandonar
-, brincando com ideias para o livro. Ou cuidando de Terapia (talvez role outro
projeto de quadrinhos, mas ainda não é nada certo). Mas também escrevo muito
para os outros.
Ah, sim, ainda escrevo para muita gente, afinal, eu ainda tenho
contas para pagar. Confiem em mim: tem textos aí no Facebook ou em alguns
sites, que são meus e você nem sabe disso. E mesmo morando longe, estou indo
bem, com todos os trabalhos em dia – afinal, eu posso ter me adaptado à velocidade
da cidade, mas continuo escrevendo rápido. Vou para São Paulo duas ou três
vezes por mês, para reuniões, e o resto consigo fazer tranquilamente daqui. E o
bom é que estou trabalhando somente com gente que gosto e que valorizam meu
trabalho.
Mas coloquei uma regra para mim mesmo. Eu não escrevo depois
que anoitece – a não ser, claro, que aconteça alguma emergência em um dos
trabalhos que faço. Depois de anos sem tempo para mim, hoje o que eu mais
valorizo é tempo para mim. E quando você mora numa cidade onde o tempo parece
passar mais devagar, isso é fácil de conseguir.
Claro que ajuda muito eu não perder muito tempo na internet.
Ainda acesso Twitter, Facebook, mas basicamente falo somente com os amigos –
disso não abro mão - e uso para divulgar meu trabalho. Me mantenho atualizado,
mas sem me aprofundar muito, apenas lendo as manchetes do dia – e tem dias que
nem isso. Cada vez mais estou me convencendo de que as polêmicas de internet e
os escândalos políticos só entram na minha casa se eu deixar. E eu resolvi que
não deixo mais – mesmo porque eles são iguais, todos os dias, não fazem falta.
Assim, as noites são minhas. Às vezes, enquanto a Ana
prepara o jantar, eu leio um pouco na varanda. Estou com uma pilha de livros de
fantasia e ficção científica aqui, mas não tenho lido, pois não gosto de fazer
isso quando estou pensando num livro novo. Então, ultimamente, eu tenho jogado
um pouco de videogame – o que não muda muito, já que eu acabo absorvendo ideias
do jogo o tempo inteiro.
Depois do jantar, normalmente assistimos a um filme ou
mergulhamos em alguma série. Meu enteado ficou em São Paulo, estudando, e agora
somos apenas nós dois, então temos a televisão para nós o tempo inteiro. Mas às
vezes saímos para tomar alguma coisa, ou simplesmente dar uma volta à noite,
mas normalmente vamos dormir cedo – já que acordamos cedo todos os dias para
andar no calçadão antes de começarmos o dia.
As únicas exceções são as noites de terça e domingo. Terça
eu dou aula de história do cinema numa faculdade aqui perto – já me avisaram
que ano que vem querem que eu lecione redação publicitária, mas ainda não é
nada certo. Vamos ver.
E domingo eu apresento um programa numa rádio universitária,
sobre blues. Não ganho muito – a rádio é pequena –, mas é gostoso passar uma hora
no ar falando sobre o que gosto – claro que eu preciso sempre colocar coisas
mais acessíveis, como Stevie Ray Vaughn, Eric Clapton e por aí vai, mas às
vezes eu consigo rodar um Robert Johnson ou um Skip James.
Aliás, nunca ouvi tanto blues como atualmente. Passo o dia
inteiro ouvindo isso – até mesmo para escolher o que tocar no programa, mas principalmente
porque é a música que mais conversa comigo hoje. Ainda sou apaixonado por rock
clássico e heavy metal, mas tenho deixado isso basicamente para shows. Aliás,
mês que vem vamos a um show em Buenos Aires.
O que me lembra: este sábado meus pais vêm nos visitar.
Minha mãe, claro, vai chorar na hora de ir embora, no domingo à tarde, e me
perguntar quando vamos dar um neto a ela. Quem sabe ano que vem? As coisas
estão caminhando bem, talvez seja a hora. E final-de-semana que vem é a vez de
um casal de amigos meus vir conhecer a casa, e passarem o feriado aqui.
E agora vou encerrar por aqui. O sol está se pondo e tenho
que cumprir minha promessa – mas hoje o pôr do Sol está bonito, então vou beber
algo na varanda e ver se a Ana não quer ficar lá comigo até a hora do jantar.
Ou não. Na verdade, eu vou esfregar os olhos e voltar para a
minha realidade em São Paulo. Vou terminar meus textos rapidamente aqui, para
correr até o metrô, torcendo que ele não esteja (muito) lotado.
Vou entrar em casa mais cansado do que ontem, e com a
sensação de que o dia já acabou. Com sorte, vamos comer qualquer coisa, rapidinho,
e vermos um episódio de algo na TV, antes de eu desmaiar de cansaço e, dormir
algumas horas antes de começar mais um dia que vai ser igual o de hoje.
Mas não precisa ser assim para sempre. E não será assim para sempre.
Prometo.





