15 de maio de 2013

(Feli)Cidade



Desde que me mudei para Florianópolis, alguns meses atrás, tive que me adaptar a uma nova rotina, totalmente diferente da que eu conhecia.

Como eu imaginava, a cidade se move num ritmo mais devagar do que estou acostumado. As primeiras semanas foram difíceis, neste sentido: eu e a cidade demoramos a entrar em sintonia e, assim, eu acabava me irritando com a demora. Era no mercado, no restaurante, no banco, no bar.

Acho que isso durou pouco mais de um mês, até eu passar um dia em São Paulo. Quase enlouqueci, mas descobri que Florianópolis não é devagar, é São Paulo que se atropela demais. Ou seja, entre eu e Florianópolis, quem estava errado era eu. Foi quando tomei jeito, percebi que se eu quisesse correria, eu teria continuado em São Paulo e me adaptei à cidade.

Acho que foi aí que a paixão pela cidade – que nasceu mais de ano atrás, durante uma viagem de Ano Novo – virou amor.

E, claro, foi aí que as coisas se ajeitaram. Mas eu confesso que ainda não entendo como a cidade pode ser mais devagar e, mesmo assim, o dia rende muito mais do que quando eu estava em São Paulo. Mesmo porque ainda faço as mesmas coisas... Ainda escrevo o tempo inteiro, e estou começando rabiscar ideias para meu novo livro. Não vai ser sequência do anterior, como já me perguntaram. Vai ser algo totalmente diferente, e... Bom, vamos mudar de assunto antes que eu fale demais.

Enfim... Ainda escrevo a maior parte do dia. E já achei o lugar que mais gosto de fazer isso: é na mesa da sala, com o notebook. Achei que seria a varanda, mas prefiro ter o computador na mesa, e consigo ver a vista daqui onde estou. Então divido meu tempo escrevendo para mim e para os outros. Para mim, claro, estou falando dos blogs – algo que nunca vou abandonar -, brincando com ideias para o livro. Ou cuidando de Terapia (talvez role outro projeto de quadrinhos, mas ainda não é nada certo). Mas também escrevo muito para os outros.

Ah, sim, ainda escrevo para muita gente, afinal, eu ainda tenho contas para pagar. Confiem em mim: tem textos aí no Facebook ou em alguns sites, que são meus e você nem sabe disso. E mesmo morando longe, estou indo bem, com todos os trabalhos em dia – afinal, eu posso ter me adaptado à velocidade da cidade, mas continuo escrevendo rápido. Vou para São Paulo duas ou três vezes por mês, para reuniões, e o resto consigo fazer tranquilamente daqui. E o bom é que estou trabalhando somente com gente que gosto e que valorizam meu trabalho.

Mas coloquei uma regra para mim mesmo. Eu não escrevo depois que anoitece – a não ser, claro, que aconteça alguma emergência em um dos trabalhos que faço. Depois de anos sem tempo para mim, hoje o que eu mais valorizo é tempo para mim. E quando você mora numa cidade onde o tempo parece passar mais devagar, isso é fácil de conseguir.

Claro que ajuda muito eu não perder muito tempo na internet. Ainda acesso Twitter, Facebook, mas basicamente falo somente com os amigos – disso não abro mão - e uso para divulgar meu trabalho. Me mantenho atualizado, mas sem me aprofundar muito, apenas lendo as manchetes do dia – e tem dias que nem isso. Cada vez mais estou me convencendo de que as polêmicas de internet e os escândalos políticos só entram na minha casa se eu deixar. E eu resolvi que não deixo mais – mesmo porque eles são iguais, todos os dias, não fazem falta.

Assim, as noites são minhas. Às vezes, enquanto a Ana prepara o jantar, eu leio um pouco na varanda. Estou com uma pilha de livros de fantasia e ficção científica aqui, mas não tenho lido, pois não gosto de fazer isso quando estou pensando num livro novo. Então, ultimamente, eu tenho jogado um pouco de videogame – o que não muda muito, já que eu acabo absorvendo ideias do jogo o tempo inteiro.

Depois do jantar, normalmente assistimos a um filme ou mergulhamos em alguma série. Meu enteado ficou em São Paulo, estudando, e agora somos apenas nós dois, então temos a televisão para nós o tempo inteiro. Mas às vezes saímos para tomar alguma coisa, ou simplesmente dar uma volta à noite, mas normalmente vamos dormir cedo – já que acordamos cedo todos os dias para andar no calçadão antes de começarmos o dia.

As únicas exceções são as noites de terça e domingo. Terça eu dou aula de história do cinema numa faculdade aqui perto – já me avisaram que ano que vem querem que eu lecione redação publicitária, mas ainda não é nada certo. Vamos ver.

E domingo eu apresento um programa numa rádio universitária, sobre blues. Não ganho muito – a rádio é pequena –, mas é gostoso passar uma hora no ar falando sobre o que gosto – claro que eu preciso sempre colocar coisas mais acessíveis, como Stevie Ray Vaughn, Eric Clapton e por aí vai, mas às vezes eu consigo rodar um Robert Johnson ou um Skip James.

Aliás, nunca ouvi tanto blues como atualmente. Passo o dia inteiro ouvindo isso – até mesmo para escolher o que tocar no programa, mas principalmente porque é a música que mais conversa comigo hoje. Ainda sou apaixonado por rock clássico e heavy metal, mas tenho deixado isso basicamente para shows. Aliás, mês que vem vamos a um show em Buenos Aires.

O que me lembra: este sábado meus pais vêm nos visitar. Minha mãe, claro, vai chorar na hora de ir embora, no domingo à tarde, e me perguntar quando vamos dar um neto a ela. Quem sabe ano que vem? As coisas estão caminhando bem, talvez seja a hora. E final-de-semana que vem é a vez de um casal de amigos meus vir conhecer a casa, e passarem o feriado aqui.

E agora vou encerrar por aqui. O sol está se pondo e tenho que cumprir minha promessa – mas hoje o pôr do Sol está bonito, então vou beber algo na varanda e ver se a Ana não quer ficar lá comigo até a hora do jantar.

Ou não. Na verdade, eu vou esfregar os olhos e voltar para a minha realidade em São Paulo. Vou terminar meus textos rapidamente aqui, para correr até o metrô, torcendo que ele não esteja (muito) lotado.

Vou entrar em casa mais cansado do que ontem, e com a sensação de que o dia já acabou. Com sorte, vamos comer qualquer coisa, rapidinho, e vermos um episódio de algo na TV, antes de eu desmaiar de cansaço e, dormir algumas horas antes de começar mais um dia que vai ser igual o de hoje.

Mas não precisa ser assim para sempre. E não será assim para sempre.

Prometo.

14 de maio de 2013

Algo a Dizer Sobre não Ter o Que Dizer



Eu não me recordo ao certo de quando comecei a escrever. Ainda na escola, adorava as aulas de redação – e fiz algumas das quais me orgulhei bastante, à época. Sempre subvertendo os textos, sempre brincando com as regras e expandindo as regras do trabalho. Hoje, anos depois, sou jornalista, publicitário, redator, roteirista... Na verdade, acredito cada vez mais que eu seja tudo isso, hoje, apenas porque talvez eu tenha sido escritor sempre – eu apenas desdobrei isso em outras atividades.

Só escrevo? Não. Faço outras coisas. Mas acredito de verdade que sou escritor em tempo integral. Passo a maior parte do tempo pensando em textos. Ando pela rua pensando em textos, imagino textos antes de dormir, experimento diálogos dentro da minha cabeça enquanto estou escrevendo outros textos. É por isso que eu tenho uma necessidade quase vital de escrever. Eu preciso tirar a ideia da cabeça e colocá-la na tela, somente para abrir espaço para ideias novas.

Escrevo apaixonado ou não escrevo. É assim que defino em relação não apenas ao ato de escrever, mas aos meus textos em si. Sou apaixonado por cada um deles. Alguns fizeram sucesso, outros foram lidos por somente algumas pessoas; alguns foram esquecidos pelos leitores, outros são lembrados até hoje; alguns mereciam melhor chance, outros conseguiram romper a ditadura das piadas-com-foto-do-Chapolim-e-erro-de-concordância e se espalharam pela internet. E eu me orgulho de todos eles.

Quando escrevo, trato meu texto com o cuidado que ele merece. E não estou falando de querendo saber “quem leu”, “quem não leu”, “o que acharam”. Faço isso? Faço, mas sei que nessas horas estou cuidando de mim, como escritor, e não do texto. Cuidar do texto é pensar nele antes de digitá-lo, não publicá-lo se não saiu bom, procurar fazer com que ele seja diferente dos outros textos que fiz. Basicamente, cuidar de um texto é escrevê-lo como se fosse o último que você irá redigir na vida. Pois, você é apenas tão bom quanto seu último texto. Especialmente na internet.

Tenho para mim que escrever é uma atividade nobre. Respeito quem faz. Não é fácil montar ideias inteiras tendo somente 26 letras para isso. É bastante difícil, na verdade. E é por isso que eu cuido do meu texto, como disse acima. Jamais faço um texto “gratuito”. Sim, eu tenho necessidade de escrever, como disse. Mas, apesar de escrever a maior parte do tempo para a internet, não me sinto obrigado a escrever sobre o assunto do momento (o que parece ser a regra nas redes sociais hoje em dia). Se eu percebo que não tenho nada a acrescentar sobre o grande assunto do dia, ou que o tema simplesmente não me interessa, me dou o direito de preservar meus textos e mantê-los longe disso.

Algo no assunto precisa me interessar antes de eu começar a escrever. Posso, sim falar sobre polêmica do dia – mas é preciso o assunto me me interesse, independente de todo mundo estar falando sobre ele ou não. E faço isso muitas vezes do meu jeito (subvertendo as regras dos textos nas aulas de redação, lembram?). Não se espante se a grande polêmica do dia virar, no meu teclado, uma crônica. Agora, se a polêmica do dia não me atrai - ou é um assunto que não domino -, não me sinto na obrigação de escrever sobre ela. Prefiro rabiscar algo sobre o casal que se beijou no metrô, sobre a velha que arrumou confusão na padaria, sobre a briga que tive com meu cachorro – coisas do meu mundo, que os leitores se identificam e percebem que também fazem parte do mundo deles.

A bem da verdade, a internet se torna, cada vez mais, o lugar onde o essencial é descobrir qual assunto desnecessário se torna, de repente, absurdamente necessário e deve ser discutido. E, claro, muitos se aproveitam do assunto desnecessário-que-virou-essencial para criar textos inflamados ou vazios, humorísticos ou analíticos, apenas para ganhar seus 15 acessos de fama. Eu não. Eu preciso ter algo a dizer antes de começar a escrever. Se eu não tenho, corro para o meu mundo, para as minhas crônicas, e minha vida segue normalmente. Faço isso por mim, faço em nome dos meus leitores e - principalmente - faço em nome dos meus textos. E, nos meus blogs, vai ser sempre assim. Não se trata de buscar fama, mas sim de saciar uma paixão.

Dizer aqui que nunca vou escrever sobre uma polêmica seria mentir. Claro que vou. Já fiz e certamente farei de novo. Mas, como eu disse, meus textos são algumas das coisas mais importantes que fiz – e faço, e farei – na vida. E eu jamais vou prostituí-los em nome do assunto do momento, somente em busca de acessos relâmpagos e efêmeros. Como qualquer pessoa que escreve, meus textos são quase como filhos. Minha obrigação é que ensiná-los a falar somente quando puderem acrescentar algo. Jamais escrevo em nome de acessos, especialmente de forma inflamada. Se você escreve, sempre que ficar em dúvida sobre isso, volte sempre a este texto. Calma, você não precisa reler o texto inteiro. Escrever é a arte de cortar palavras: leia apenas a primeira palavra de cada parágrafo que já vai estar bom. Confie em mim.

8 de maio de 2013

O Sexto Sentido



Rob: Eu quero contar meu segredo para você agora.

Psicólogo que pode estar morto: Ok.

Rob: … Eu vejo gente… Eu vejo gente estranha. Algumas delas me assustam.

Psicólogo que pode estar morto: Nos seus sonhos?

Rob: Não.

Psicólogo que pode estar morto: Quando você está acordado?

Rob: Sim.

Psicólogo que pode estar morto: Pessoas estranhas, com roupas engraçadas ou fantasias?

Rob: Não. Andando pelas ruas, como pessoas normais. Algumas delas não sabem que são estranhas.

Psicólogo que pode estar morto: Elas não sabem que são estranhas?

Rob: Eu vejo malucos. Por exemplo, hoje eu estava esperando o ônibus e uma mulher apareceu. Parou ao lado do ponto de ônibus e começou a arrancar um adesivo com as unhas. Um daqueles adesivos escrito “Compro Ouro”, sabe?

Psicólogo que pode estar morto: Sei. Ela não falou com ninguém?

Rob: Não. Ela estava caminhando pela calçada, parou ao lado do ponto e começou a arrancar o papel com as unhas. Mais nada. Olhe, eu tirei uma foto sem ela ver.


Psicólogo que pode estar morto: Que estranho.

Rob: Foi exatamente o que eu lhe disse. Gente estranha. Eu vejo o tempo todo. Pensei em perguntar se ela também compra ouro e aquele adesivo era de um concorrente, mas achei melhor não chamar a atenção dela.

Psicólogo que pode estar morto: Você fez bem.

Rob: Sim. Acho que sim.

Psicólogo que pode estar morto: Essas pessoas estranhas... Você as vê com que frequência?

Rob: O tempo inteiro. Nas ruas, nas padarias, em lojas... O tempo inteiro.

Psicólogo que pode estar morto: Entendo.

Rob: Você não vai contar meu segredo para ninguém, certo?

Psicólogo que pode estar morto: Não.

5 de maio de 2013

O País que Fura a Fila da Padaria para Comprar um Frango


Acabei de voltar da padaria.

Precisava sacar dinheiro, então aproveitei e comprei uma garrafa de Coca para o almoço, e um maço de cigarros. Antes de continuarmos, vale dizer que a padaria aqui ao lado de casa se tornou um inferno aos domingos, desde que o dono começou a vender frangos. Está sempre lotada, tanto no caixa como na calçada, onde fica o forno.

Enfim, eu queria apenas uma garrafa de Coca. Entrei na padaria, fui até a geladeira, peguei o refrigerante e fui para a fila do caixa, atrás de um casal. Como eu imaginava, vi umas cinco pessoas na minha frente. Assim, fiz o que costumo fazer numa situação dessas: tirei o celular do bolso e iniciei uma partida de buraco – sim, eu adoro jogar buraco e tenho um aplicativo disso no celular.

E, assim, entre um joguinho de paus e a atenção ao quatro de ouros que eu não podia descartar de forma alguma, a fila foi andando. Foi quando ainda havia dois clientes na minha frente que eu a vi: uma mulher de seus cinquenta e poucos anos, esperando para ser atendida. Fora da fila. Ao meu lado, entre o casal e eu.

Na hora, imaginei que ela fosse furar a fila. Mas, logo me convenci do contrário. Ninguém teria a cara-de-pau de furar a fila desta forma. Até aonde eu sei, furar a fila é uma arte: você precisa entrar na fila no momento em que ninguém estiver olhando e, depois disso, agir de uma forma que não levante suspeita alguma, mostrando que você sempre esteve ali na fila, e que as pessoas atrás de vocês que não tinham reparado nisso.

Assim, concluí que a mulher iria apenas perguntar algo para a funcionária do caixa. Voltei minha atenção para o celular, e resmunguei baixinho quando desisti de comprar a mesa para receber uma carta repetida do monte. E o casal à minha frente foi atendido, pagou pelos seus produtos e foi embora.

Antes que eu desse um passo à frente, a mulher encostou-se ao balcão, jogou uma nota de cinquenta reais e pediu um frango.

Eu abaixei o celular e olhei para a mulher.

Minha primeira reação foi bater no ombro dela, chamar sua atenção e explicar que eu era o próximo a ser atendido, como ela certamente havia percebido. Algo me dizia que ela retrucaria, explicando que “chegou primeiro” ou que “é apenas um frango”, eu responderia de volta, desta vez sendo grosso. Ela seria grossa de volta. Pronto: o tempo ia fechar na padaria.

Mudei de ideia e resolvi não falar nada.

Minto. Mudei de ideia e desisti de falar as outras duas coisas que pensei.

A primeira delas envolvia perguntar se ela estava adaptando o conceito de “ladrão de galinha” para o século 21. Talvez rendesse até um post (dependendo da resposta dela, claro), na qual eu traçaria toda a evolução dos ladrões de galinha, desde suas origens roubando galinheiros nos anos 50 até os dias de hoje, onde eles roubam um papel escrito “frango”, que seria quase uma galinha virtual. Mas desisti. De repente, percebi que não valia a pena.

A segunda coisa que pensei em dizer foi comentar para mim mesmo, mas em alto e bom som, que “isto é um tipo de canibalismo, certo? Afinal, nós temos uma galinha comendo um frango, é quase um fenômeno biológico”. Esta alternativa com certeza resultaria em quebra-pau – e algo me diz que com grandes chances de visita à delegacia.

Mas não falei nada. Fiquei quieto, não por causa do medo da briga ou do escândalo, mas sim pela onda de desânimo que eu senti. Você já deve ter sentido algo parecido. É quando você convive com um problema tempo demais até ele começar a fazer parte da sua vida. Você não consegue resolvê-lo, e ele está sempre ali, incomodando. Às vezes mais, às vezes menos.

Contudo, de repente, num dia como outro qualquer, o problema aparece não para incomodar, mas para fazer você perceber que não vai ter solução, e que vai ser sempre assim. Esse foi o desânimo que senti. De repente, perdi a vontade de arrumar confusão, de criar um post novo em cima do fato...

Aliás, de repente, perdi a vontade, ponto.

Deixei a mulher comprar o frango. Paguei meu refrigerante e meu cigarro e voltei para casa. No caminho, vim pensando sobre muita coisa que tenho visto nos últimos dias, especialmente nas redes sociais.

Pois hoje me parece que se confunde o “direito de dar opinião” com o “dever de dar opinião”. Ficar calado é quase um crime. Você tem a obrigação de opinar, como se fosse uma ditadura da democracia.

E ai de você se sua opinião não for definitiva. E não é apenas política, é tudo. Desde futebol até coxinhas.

Ali, do sofá, debate-se durante horas qual dos cantores que brigam por política está certo; qual o único partido político que presta no Brasil; como o governo do partido rival ao seu praticamente acabou com o planeta; como o escândalo no qual o partido que você apoia é uma mentira da oposição.

Debate-se muito, xinga-se muito, ataca-se muito, inventa-se muito e muda-se nada. 

Se você é uma dessas pessoas, que discute desta forma na internet, certo de que está fazendo o melhor para o seu país, deixe-me falar uma coisa: você provavelmente mal conhece o país onde mora.

Pois o país onde você mora não está preocupado com suas opiniões sobre política ou economia jogadas na internet; o país onde você mora não está preocupado em saber qual partido é formado por heróis, e qual é formado por vilões; o país onde você mora não está preocupado em saber se a propaganda X é sexista, se o deputado Y aceitou propina, se o partido irá interferir com o Judiciário.

É uma discussão estéril, feita na internet, pela internet, para a internet. Pois não se discute para melhorar o país, se discute somente para provar que o adversário está errado e ganhar a discussão - pois a regra na internet não é aprender com a opinião do outro, é mostrar que ela está errada.

Assim, a discussão não chega às ruas. Ela não chega ao país verdadeiro. Pois o país onde você mora não está na internet, nem nos jornais. O país onde você mora está lá fora, pouco se importando para tudo isso que se discute na internet. São realidades diferentes.

Pois o Brasil verdadeiro está ali, nas ruas, furando a fila para comprar um frango na frente dos outros.

E não, não me diga que estou generalizando. Não estou. O país onde você mora está furando a fila da padaria, mas está também estacionando em local proibido porque ninguém vai ver, está dando errado troco errado, pois ninguém vai perceber.

O país onde você mora está andando de bicicleta na contramão porque ninguém tem coragem de reclamar, o país onde você mora está colocando um frasco de xampu na bolsa porque a câmera está virada para o outro lado, o país onde você mora está usando ingredientes vencidos porque é mais barato.

Ao mesmo tempo, o país onde você mora proíbe você de atender o celular no banco porque você pode ser um assaltante, impede você de sacar dinheiro à noite, pois não evita o crime, recomenda que você ignore o sinal vermelho para não ser assaltado. O país onde você mora levanta sua nota e olha contra a luz para ter certeza de que não é falsa.

Este é o país onde você mora. O que se discute na internet não é a causa disso, é apenas mais uma consequência. E discutir uma consequência nunca resolveu um problema. Não seria agora que isso iria mudar.

Mesmo porque, sejamos sinceros... Não mudou até hoje. 

Vai mudar algum dia?

3 de maio de 2013

Mississipi em Chamas


Foi agora, no metrô.

Entrei e, como o vagão estava vazio, me apoiei na porta. E com meus fones nos ouvidos, troquei o CD do iPOd e ele decidiu que era hora de eu ouvir Me and Mr. Johnson.

Este CD, para quem quer conhecer blues, é sugestão obrigatória. São de versões do Eric Clapton para as músicas do Robert Johnson – ou seja, são as canções do maior blueseiro morto, interpretadas pelo maior blueseiro vivo. E me arrisco a dizer que Clapton é o homem que, atualmente, mais conhece Johnson, mais que qualquer biógrafo – e isso fica claro em cada música.

Ativei o shuffle, apertei o play e os primeiros acordes de Stop Breaking Down Blues começaram a tocar.

Ainda apoiado na porta, fechei os olhos.

E comecei a sentir o perfume de terra molhada.

Cheiro de terra vermelha e molhada. Terra de estradas pouco iluminadas, cercadas de mato em seus dois lados, terra de carroças e de andar descalço durante o dia. Mas era noite eu usava botas, um pouco envelhecidas e sujas, mas guardadas para ocasiões especiais.

E foi com estas botas que entrei no bar, segurando ela pela mão, e caminhei em direção a uma mesa do canto. Ninguém ouviu meus passos abafados pelo som do falatório animado, mas muitos sorriram para nós. Alguns acenaram com a cabeça. Pessoas que eu conhecia de vista, pessoas que eu conhecia por morarem perto de mim, pessoas que eu não fazia ideia de quem eram.

Sentado e com os cotovelos apoiado na mesa de madeira grossa e torta, pedi quatro doses. Duas para mim, duas para ela. E só. Pois é o tipo de bar que você não precisa explicar qual sua bebida, somente quantas doses você quer. O primeiro copo desceu rasgando e queimando, mas amorteceu o caminho para o segundo, que foi engolido mais fácil.

Algumas pessoas sentaram-se conosco. Amigos. Amigos de dia a dia, amigos de reclamar da vida, amigos de calos nas mãos, amigos de risada nas horas de bebida, amigos de consolo nas tempestades. Com eles, vieram outras doses, acompanhadas de conversas e lendas. Lendas sobre almas vendidas em encruzilhadas dançavam ao redor de reclamações sobre as chuvas.

Piadas sobre trabalho no campo davam as mãos às histórias de cães do inferno perseguindo cantores amaldiçoados. E risadas que faziam o bar – nada mais que um barraco – parecer tremer. E o cheiro de terra molhada deu lugar a um misto de suor, álcool e risadas. E a bebida queimava cada vez menos, ao contrário da alma.

Foi quando o violão começou a soar.

Um homem negro e magricela dedilhava as cordas com um bico de garrafa preso no indicador. Seus dedos percorriam as cordas como uma aranha. E quando cantou, sua voz poderosa abafou a tormenta de barulho do bar, mas somente por alguns instantes, até que todos se levantaram e começaram a dançar.

Suas músicas eram interrompidas somente para longas goladas na garrafa de uísque de milho que colada aos seus pés, brilhava sob a luz. Sob o efeito de sua voz e dos acordes misteriosos, todos dançaram, fazendo o barracão tremer.

Eu me levantei sem poder me controlar. Todos os meus movimentos pertenciam aos acordes do violão e às batidas pesadas do pé do cantor no chão. E quando percebi, estava no meio de uma multidão apertada, sem conseguir parar de mexer.

Eu e ela e o bar inteiro dançamos amores perdidos no passado, cantamos o trabalho duro debaixo do Sol forte, aplaudimos a falta de dinheiro para roupas novas, oramos a fé em Deus que um dia as coisas vão melhorar, requebramos o sexo suado na parede da sala, louvamos amores reais que cuidam da alma, rodamos o sonho de largar tudo para trás e viajar queimando na mente, e nos abraçamos suados esperando o dia do Julgamento.

Cada um dançava a seu modo, expiando pecados para fora da alma, expulsando tristezas para fora do coração, transpirando a rotina dura para fora do corpo. Não havia ordem. Havia somente suor e álcool. E de repente não havia mais música. Éramos a música.

E feito música suada e embriagada dançamos até alta madrugada. E, pouco antes do nascer do Sol, suados, nos despedimos de todos pouco depois do homem negro recolher seu violão, emprestar outra garrafa e desaparecer na noite, para nunca mais ser visto – no sábado seguinte, outro homem cantaria outras músicas sobre os mesmos amores e pecados e sonhos.

E, sentindo o cheiro de terra molhada e vendo o céu se tornando laranja no horizonte, voltamos em direção à nossa casa de madeira, afastada da estrada e isolada do luxo. Mas, no meio do caminho, tirei as botas e deixei meus pés sentirem a terra.

Sem falar palavra alguma, eu e minha pequena rainha de espadas, agora sozinhos, dançamos na estrada de terra. De mãos dadas, ela rodando na minha frente e fazendo sua saia branca girar, desafiando o Mississipi e gastando os ecos da música sensual e dolorida que ainda escorriam junto com o suor das minhas costas.

Poderíamos ir para casa outra hora. O dia ainda não havia nascido, e o dia seguinte era domingo.

Mesmo com todo o tempo do mundo, me obriguei a abrir os olhos ao ver que a próxima estação era a minha. Olhei ao redor, observando pessoas no metrô com ar cansado, mexendo em seus celulares ou lendo livros sem paixão nos olhos. Chacoalhei a cabeça e voltei ao mundo real.

Mas jurei baixinho que um dia voltarei para lá, para sentir a terra nos meus pés e a música na alma.